domingo, 13 de fevereiro de 2011

Uma Quinta Estação





Uma fotografia estampada na memória...
Lembranças vivas de um passado quase
morto diante da realidade estúpida!

Uma estrela da manhã se fez uma
esperança no presente, mas se perdeu                       
no azul infinito...                                   
                                                          
Nos ventos de agosto trazendo a primavera,
que me dera a semi-idéia de sabores de verão     
anunciando a pele dourada da mulher que                    
peregrina  pelas praias veraneias de doces
lendas de reflexões vista pelo espelho.  

Neste espelho revela as faces das tardes outonais
Mesmo sendo insólita e tão despretensiosa e
absolutamente sem causa, com a fúria no
efervescente peito, também  com  a loucura
que deveras  ter  destas  estações docilmente
bucólicas.

Há de vir o inverno... para insurgir a razão na
mente e sob medida ter fantasias nos ventos
de agosto.
Em outras manhãs, não há de ter estrelas e
tampouco a poesia envolvente n’alma
Jubilando as estações.

Ide! As quatro estações deste sincronismo
melancólico onde a reflexão é uma morte
anunciada pelas noites frias.


Talvez num outro tempo, seja menos pungente
e mais humano viver tão-somente nos ventos
de agosto em silenciosos amanheceres sob a
lucidez das estrelas, e a realidade maquinalmente
dos ponteiros seja castradas.


Sobre o Autor:
Adriano-José, é graduando em História pela Faculdade Euclides da Cunha - FEUC de São José do Rio Pardo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Assim é o pó






























Técnicas utilizadas: Nanquin sobre papel.































Sobre o autor:
Getulio Cardozo, é poeta, advogado e também é ilustrador.



terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sândalo Clandestino







Das correntezas de saudades (aos prantos)... No espelho
olhares difusos marcados pela linha de um tempo fugaz
quase desconhecido...           



Uma dor qualquer latente que beija células agonizantes
que antes ainda era a juventude materializada dentro de
pequenos frascos, talvez um sândalo ou um cheiro
pérfido de piedade exalados do teu corpo torpe.


Este perfume materializa as subjetividades de um ser,
torna-se invisível perante a concretude de um corpo,
repentinamente, o mistério personifica a viagem dos
mitos de tempos...


No espaço da clandestina percepção, massa mistifica o
corpo, deixa fórmula de um pecado tão-somente ingênuo.
O sincronismo do universo fecunda causas que jamais
desmistificadas será!


Amiúde, a dor se funde à beleza e o afã do peregrino,
posto que, divaga no mundo ébrio sob alusões de
olhares estridentes que enleia a saudade...
Mas o sândalo tange a intensidade e a pérfida piedade
tem sabor de angustia das areias caídas na ampulheta.




Sobre o autor:
Adriano-José, é graduando em História pela Faculdade Euclides da Cunha - FEUC de São José do Rio Pardo.



Catavento e girassol

Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea
Quando eu respeito os sinais
Vejo você de patins
Vindo na contra-mão
Mas, quando ataco de macho
Você se faz de capacho
E não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega
Nós não ouvimos conselho:
Eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho
Eu sou do Engenho de Dentro
E você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio
E você é expansiva
(o inseto e a flor)
Um torce pra Mia Farrow
O outro é Woody Allen...
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana
Eu vou de tênis e jeans
Encontro você demais:
Scarpin, soirée
Quando o pau quebra na esquina
Você ataca de fina
E me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha
E ninguém mete o bedelho:
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho
A paz é feita no motel
De alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos
Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea!
Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente
Pra se completar
Sei que um se afasta do outro
No sufoco somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou mais vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho







Compositor: Guinga e Aldir Blanc
Canta: Leila Pinheiro

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Cine Mococa 50 anos


A concernente película em comemoração ao cinqüentenário do nosso glorioso Cine Mococa partiu da idéia de prestar em vida uma homenagem ao grande Zezé Lippi, assim como, os idealistas responsáveis pela construção da sala de cinema, como o Padre Haroldo e tantos outros colaboradores.

O documentário Cine Mococa 50 anos foi uma árdua empreitada, desde a elaboração do roteiro, a pesquisa de fontes, a escolha das fotos, trilha sonora, a conversa informal com os participantes das entrevistas, a arrecadação de recursos, o acompanhamento da edição tudo isso em um curto espaço de tempo.

Em pouco tempo o sonho alucinógeno de fazer documentário no interior sem recurso, somente com uma idéia na cabeça, auferia, corpo e adeptos, desde então vislumbrava a necessidade de constituir o Cineclube Zezé Lippi, para desenvolver o conceito de produzir audiovisual de qualidade e com apelo cultural. Um dos precursores que eu mais me inspiro é no Maestro Coelho de Moraes, que por muito tempo desenvolve projetos de elaboração de curtas. Desta forma a construção cultural em nossa cidade se desenvolve por pessoas e entidades engajadas pela popularização do nosso cinema.

Agradeço ao Silvio Granito, Leandro Granito, Zezé Lippi, Mario Zamarian e Carlos Alberto Palladini e ao Blog Canto de reticências pela oportunidade de falar um pouco sobre o documentário e aproveitando o espaço para convidar os interessados a freqüentarem o Cineclube Zezé Lippi. Aproveitem e assistam ao vídeo abaixo: Obrigado!



Sobre o autor: 
Renato Granito - (Professor de História e Geografia da Rede Estadual de Ensino, Colégio COC Casa Branca - SP, Escola Nova Objetivo Monte Santo de Minas – MG Escola Degraus ETAPA Monte Santo de Minas – MG)  Preside o Diretório PSOL – Mococa e o Cineclube (Zezé Lippi).
 
Blog: Café História: http://cafehistoria.ning.com/profile/RenatoGranito

O “SALVE” DE SÉRGIO REZENDE

                                               
Nas periferias de São Paulo o termo “salve” significa recado. Com seu último filme, Sergio Rezende dá à nação, e, em breve, dará ao mundo o seu “salve geral” sobre a atual situação do país.
Desde sua retomada nos anos noventa, para obter sucesso, o cinema brasileiro vem dando mostras que aqui é desnecessário inventar teorias de conspiração e catástrofes apocalípticas, como ocorre em estúdios hollywoodianos. Retratar nossa realidade causa, espontaneamente, efeito semelhante. Central do Brasil, Cidade de Deus, Última Parada 174, todos esses filmes disputaram o Oscar de melhor filme estrangeiro. Salve Geral, que concorrerá ao Oscar em 2010, segue a mesma linha.
Tendo como ponto de partida a história de Lúcia, mulher da classe média obrigada a trilhar os caminhos do submundo com o intuito de ajudar seu filho que se encontra preso a uma cela comum, o cineasta nos descortina o embate do PCC com o sistema carcerário e a polícia. Sergio Rezende inicia a trama usando da mesma calma com que fala em suas entrevistas, para, depois, dar o ritmo caótico dos dias 12 e 13 de maio de 2006, dias de rebeliões e confrontos. Desta forma, o filme parte do drama pessoal para chegar ao drama coletivo.
Quando o PCC paralisou São Paulo, os seus membros nos deram mostras de que se organizando, eles podem desorganizar. Como disse o próprio Sergio Rezende, “as pessoas tentavam esconder, o governo dizia que não existia, e, de repente, aquilo irrompeu”. 
Salve Geral é cinema sem maquiagem. Mesmo que os personagens tenham sido criados, há muitos de nós ali. Numa cena marcante, Ruiva, interpretada esplendorosamente por Denise Weinberg, diz a sua antagonista Lúcia: “A necessidade não obedece às leis.” Hoje, não cabe mais à classe média brasileira a inocência dos anos 60. A realidade não poupa mais a ninguém, ela está aí, face a face diante dos que não queriam vê-la.
No exterior, talvez esse filme não obtenha o mesmo sucesso que Cidade de Deus. Não há nele o lirismo daquele Western de Fernando Meireles filmado em favela carioca. O submundo de hoje não tem o romantismo de quarenta anos atrás. Neste caso, a mínima poesia que tenta sobressair estaria em Lucia, a professora de piano, mas aos poucos essa poesia se deixa minar pelos acontecimentos que a personagem não pode controlar.
Para mim, o cinema ainda é a arte do diretor. Embora os produtores cumpram papéis cada vez mais importantes, cabe ao diretor dar personalidade à obra. Foi preciso muita delicadeza para abordar o tema. O cineasta, para não deformá-lo, apenas o apalpou. Por isso, sou obrigado a discordar de alguns críticos que trataram este longa metragem como apologia ao PCC. Sua trama permite várias perspectivas diferentes, impossível reduzi-la a um ponto de vista apenas. O grande triunfo de Sergio Rezende foi equilibrar-se na corda bamba de nossa miséria sem pender para nenhum dos lados, sem tomar partido. Desta forma, provocará debates e reflexões inesgotáveis.
 Outra vez, ao sair do cinema, me voltou a nítida idéia de que, no Brasil, sempre será impossível distinguir ficção e realidade. Nossas vidas e seus filmes provam isto.




Sobre o autor:
Rafael Martins
é poeta, graduando em Letras pela FEUC e escreve para alguns jornais da cidade de São José do Rio Pardo.

Blog: http://www.margemplural.blogspot.com/

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

As Ruas de Milagres



          Discorrer sobre essas ruas é discorrer sobre cada fio de uma toalha. Algumas ruas eram tão paralelas que acabavam constituindo uma única linha reta. Só para se ter uma idéia, a rua Albertina Cardozo era um mero reflexo da rua Eustásio Cardozo.
         Durante meses discorri sobre as ruas de Milagres ao meu psiquiatra, detalhando os ruídos, os musgos nas sarjetas, os sulcos abertos pelas rodas das carroças, o silêncio e o abandono. Uma dessas ruas – não me lembro qual – era uma linha morta. Nela havia entulhos. Cachorros à noite farejavam o chão procurando o arraial.
         A rua Artur Cardozo era extremamente curta, medindo no máximo três metros. Era a rua onde eu brincava na areia e quando chovia ficava espiando a enxurrada. Quando Ambrósio foi baleado nessa rua, tombou com as botinas na rua Charles Cardozo e o sangue gotejou na rua Getulio Cardozo.
             A rua Antonio Cardozo era onde amanhecia primeiro. Onde primeiro se ouvia o galo bater asas e cantar.
             As ruas entrelaçavam-se sobre morros, grotas, capoeiras, constituindo uma verdadeira família: a rua Eustasio Cardozo prolongava-se na rua Alzira Cardozo e fundia-se de vez com a rua Albertina Cardozo e Francisco Cardozo, sendo que quem andava sobre uma delas estaria andando sobre as demais. O mesmo ocorria com as casas e os logradouros, pois no quintal da casa de Antonio Cardozo foi construída uma praça com o seu nome e o casal de namorados que vinha à praça vinha à casa de Antonio Cardozo.
         O restante da topografia não diferia daquela descrita nos contratos, memoriais descritivos, com terrenos baldios, tapumes, servidão de passagem pisada por gado, grutas, barranco de córrego com avencas, açudes, brejos, etc. 


Sobre o autor:
Getulio Cardozo, é poeta, advogado e também é ilustrador.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Monólogo de Orfeu



Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! Sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!


                                    (Vinicius de Moraes / Antonio Carlos Jobim)




Texto retirado originalmente da peça teatral: Orfeu da Conceição, baseada no drama da mitologia grega de Orfeu e Eurídice.

Sobre os autores:
Vinícius de Moraes. Poeta essencialmente lírico, o poetinha (como ficou conhecido) notabilizou-se pelos seus sonetos. Conhecido como um boêmio inveterado.
Antonio Carlos Jobim, mais conhecido como Tom Jobim, foi um compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista brasileiro.
É considerado um dos maiores expoentes da música brasileira e um dos criadores do movimento da bossa nova. É praticamente uma unanimidade entre críticos e público em termos de qualidade e sofisticação musical.
Na somatória do talento de ambos foram grandes contribuintes para a música brasileira, teatro e também à poesia.




Maria Bethânia com sua voz estupendamente linda nos brinda com a interpretação impecável da peça musical Orfeu da Conceição no texto adaptado Monólogo de Orfeu. Assista!





quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Com a Usura





Com a usura nenhum homem tem casa de pedra firme
de blocos bem talhados
e bem lisos
para o desenho os recobrir na face,
com a usura
nenhum homem tem um paraíso pintado na sua igreja

harpes et luthes
nem sítio onde a Virgem receba a anunciação
e onde um feixe de luz jorre da ferida,
com a usura
nenhum homem vê Gonzaga os seus herdeiros e as suas concubinas
nenhum quadro é pintado para durar
ou viver com ele
é pintado mas é para vender,
para vender depressa
com a usura, pecado contra a natureza,
o teu pão é feito cada vez com piores farrapos
o teu pão é seco como o papel,
sem trigo da montanha, sem boa farinha
com a usura o traço torna-se grosseiro
com a usura não há fronteiras
e nenhum homem pode achar um lugar para a sua casa.
0 pedreiro fica longe da sua pedra o tecelão longe do seu ofício.
COM A USURA
a lã não chega aos mercados
os carneiros não ganham lã com a usura
A usura é uma peste, a usura torna romba a agulha nas mãos da virgem
e embaraça os gestos da fiandeira.
Pietro Lombardo não veio pelo caminho da usura.
Duccio não veio pela usura
Nem Pier della Francesca; Zuan Bellin` também não foi pela usura
nem foi com ela que pintaram «La Calumnia».
Não foi pela usura que veio Angelico; nem Ambrogio Praedis,
Nem veio a igreja talhada em pedra assinada: Adamo me fecit.
Não veio pela usura Santa Trófima
Não veio pela usura Santo Hilário,
A usura corrói o cinzel
Ela corrói a arte e o artesão
Ela enrodilha o fio no ofício
Ninguém aprende a bordar a ouro seguindo o modelo dela;
0 azul tem um cancro por causa da usura; o carmesim fica por bordar
A esmeralda não encontra Memling
A usura mata a criança ainda no ventre
Ela corta a carreira aos jovens
Ela leva à cama a paralisia, ela está deitada entre a jovem desposada e o seu esposo. 


CONTRA NATURA
Levaram prostitutas a Eleusis
Ao banquete assentam-se cadáveres
A convite da usura.

                                     
                                                         Ezra Pound

 

Sobre o autor: Ezra Weston Loomis Pound. Nascido em Hailey, 30 de outubro de 1885 — Veneza, 1 de novembro de 1972) foi um poeta, músico e crítico literário americano foi uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia do início do século XX.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Desconhecido à Consciência


    
O silêncio traz a resposta de que tanto se deseja saber dos quais são seus verdadeiros propósitos.
Essas perguntas somente tu conseguirás satisfazê-la com teu silêncio.
É algo sábio, visto que a cada momento surpreende, e de repente..., tem-se uma resposta para uma pergunta jamais feita.
Este é o mesmo sentimento oblíquo.
Sentimento esse que se escriba no silêncio profundo e desconhecido à consciência.
Estás em todos os ensejos do cosmo e no tempo.
Compreender o silêncio é o mesmo que entender os acasos da vida.
Definitivamente não há explicação ao presente;
 a sabedoria do silêncio é um universo em expansão.
Passem quantas auroras for...
Passem quantos poentes for...
Lá estará o belo e misterioso silêncio.
                                                            Adriano-José